Há um senhor, um velhote dos castiços, que vai praticamente todos os dias ao supermercado, comprar umas coisitas, onde inclui sempre, ( eu reparo quando são coisas para animais) uns patês para gato.
Um destes dias estava particularmente bem disposto, e conversa puxa conversa, acabou por dizer que aquele dia era de felicidade para ele, porque fazia 90 anos! Tanto eu como a cliente que estava ao lado, demos os parabéns e ficamos admiradas por ser 90 anos, não lhe dava nem 80. A lucidez, a boa disposição e o caminhar tão bem, não parecia ter tanta idade.
Quando o senhor saiu , a outra cliente, disse que a nossa geração, se chegasse aos 90, iríamos estar todos "partidos"!
O vinil surgiu em Portugal na década de 1940. As primeiras fábricas surgiram mais tarde, como a da Valentim de Carvalho em 1963. O vinil remete para a nostalgia, para o passado.
A turma do vinil é o nome carinhoso, que identifica, as pessoas com mais idade, a maioria já reformados, que costumam ir ao supermercado, logo pela manhã cedo. Uma parte deles (talvez 50%) não gosta de esperar, não querem ficar nas filas e reclamam; a outra parte são tranquilos.
Consequentemente, estes dois tipos de pessoas, nesta turma do vinil, classificam-se como, os impacientes, e os pacientes.
Os impacientes, reclamam do tempo de espera, brigam por um lugar numa fila, os pacientes aproveitam o facto de estar nas filas para conversarem e interagirem entre eles e e com os funcionários.
Apesar dos impacientes, ás vezes me deixarem stressada, gosto imenso desta turma do vinil. Gosto das conversas, gosto de aprender com eles, pois têm uma maior experiência de vida.
Há um velhote dos castiços, que é sempre muito atencioso e simpático.
Um destes dias estávamos a falar de avarias em carros. Ele disse-me que quando há 35 anos comprou o seu carro, novo em folha, disse que seria o ultimo. O carro tem 35 anos, anda no campo e está bom. inclusive, disse ainda, que daqui a 6 anos teria oitenta e tal anos e ia deixar de conduzir, e, por isso, seria aquele carro, até ao fim da vida.
É um senhor do meio rural, mas muito elucidado e culto. Um analista nato. É sempre um gosto conversar com estas pessoas, assim, positivas, bem dispostas, educadas! Melhoram o meu dia!
Estava a atender uma senhora, uma velhota castiça, que eu já há algum tempo não encontrava. Que feliz eu fiquei de a ver bem. Foi muito querida comigo, aliás como sempre.
Levava alguns frasquinhos , de sabonete, de gel banho, uns que têm um manípulo que temos de rodar, e que depois funciona com um clic. Muito educadamente pediu-me se eu os podia abrir, porque ela não era capaz. Na imagem, o primeiro está fechado, e o segundo aberto, depois de rodar!
A primeira coisa que pensei foi que nem eu própria ás vezes consigo, mas prontifiquei-me a ajudar, apenas questionei se depois não vertia o liquido pelo caminho, ela assegurou-me que não!
Felizmente consegui, ela ficou agradecida e eu satisfeita por poder ajudar. Mas, de facto, estes manípulos podem até ser seguros, mas não são fáceis!
Há uns dias , estava a atender uma senhora, uma velhota castiça e já habitual. Quando chegou a altura de pagar a senhora não encontrava o cartão multibanco.
A senhora entrou em stresse, tinha uma carteira grande com muitos compartimentos, muitos cartões, de supermercados, de lojas, cartão de cidadão, abria fechos, fechava fechos, mexia em papéis. Então, eu disse à senhora se não podia estar no bolso, porque ela disse que tinha usado o cartão já ali dentro do continente, mas não havia nada nos bolsos.
Calmamente, perguntei à senhora se ela se importava que eu visse a carteira . Disse-lhe para não se preocupar. Fui até para o lado dela a ver se poderia estar no chão. Mal abri a carteira vi logo um cartão multibanco e perguntei à senhora se era aquele, ao que ela respondeu, aliviada, que sim.
Dias depois desta situação, uma outra senhora, que tinha observado o episódio, disse-me que eu devia de ser uma pessoa muito calma, porque viu como eu ajudei tranquilamente a senhora na situação. Mas, eu tive de confessar à senhora, que, calma, não é bem a palavra que me define, que sou tão stressada como aquela velhota, só que naquele momento senti que com calma a situação se ia resolver mais facilmente.
De qualquer forma , foi bom saber, que alguém viu a situação, e que achou que eu tinha estado bem! O que fiz foi tão natural, porque gosto de atender a maior parte dos velhotes aqui, e poder ajudá-los de alguma forma, é uma satisfação, para mim!
Estou neste continente há duas décadas, e sempre me lembro deste senhor, já ser reformado, e bem disposto. Já me contou diversas vezes que foi carteiro, no tempo em que a distribuição era feita de bicicleta. Ao que me consta este senhor, parece estar a viver feliz e tranquilamente a sua reforma.
Quando o cumprimentei com "bom dia", ele respondeu: "bom dia com alegria"! Quando lhe perguntei "como está?" Respondeu: "vou indo devagar, devagarinho, e às vezes parado!"
Já é habitual as pessoas andarem sempre com muita pressa, e nesta época, a pressa ainda aumenta mais .
Quando tenho clientes com mais idade, tento sempre ter o cuidado de andar ao ritmo do cliente, e ajudar no que for preciso, principalmente, quando são aqueles clientes castiços, e simpáticos.
Um senhor, estava a fazer o pagamento com multibanco, mas estava atrapalhado, então eu estava a explicar ao senhor devagarinho, como ele tinha de fazer, e o cliente que estava a seguir disse "tanto conversa"! Ao que eu respondo "mas, o senhor está na vez dele! "Responde ainda:" pois é, mas eu estou cheio de pressa!"
Não respondi, ignorei, e prossegui . E o velhote ainda pediu desculpa a este!
Há um velhote, super castiço, que mesmo quando não vai à minha caixa, vai sempre meter conversa, vai principalmente falar do meu gato.
Há duas semanas lá foi ele dizer-me que vinha aí o frio e que eu tinha de fazer uma camisola para o gato. Então eu disse-lhe que infelizmente já não tinha esse gato. O senhor ficou comovido, disse-me que bem sabia o que custava perder um animal, quando se tem amor por eles, o senhor que sempre brincava, ficou sério!
Esta semana já lá voltou e mais uma vez, foi só meter conversa e desejar um bom dia, já não falou do gato!
O dia do reformado receber a sua reforma é o dia 8, mas também se estende ali a 9 e 10. Aqui há uns tempos era a dia 10.
É um dia que gosto muito. Gosto dos velhotes castiços, a maioria são simpáticos, querem contar coisas, fazer desabafos, conversar até de trivialidades. É preciso alguma paciência é certo, porque há momentos em que temos de abrandar, dar espaço, dar tempo, mas acho que consigo dar conta do recado, com tranquilidade! É sempre bom rever, certas caras, que só vão nestes dias, porque é quando o "patrão" lhes paga!
Há vidas difíceis, reformas pequenas, mas eles acima de tudo, mostram carinho e afeição por nós!
Um senhor muito debilitado, que quando tem o carrinho ampara-se nele e leva a canadiana lá dentro.
Abriu uma nova caixa, mas ele disse que ficava naquela fila (a minha) para falar um bocadinho com "aquela menina" , ou seja , eu!
Foi sempre assim. Um senhor muito querido, que apenas conheço dali e que de alguma forma, tive o privilégio de merecer a sua atenção e o seu apreço, que muito me emociona!
Perguntei como é ele estava e ele disse que estava "na mesma"! Depois, vi-o a procurar as chave do carro, e admirada perguntei se era ele que conduzia, ao que ele respondeu, "uma maravilha, sentado, funciono muito bem, andar é que é pior"!
Despediu-se amavelmente e lá foi caminhando encostado no carrinho!