Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A lupa de alguém

Sou operadora de caixa num supermercado Continente modelo. É esse universo que eu trato neste espaço...

A lupa de alguém

Sou operadora de caixa num supermercado Continente modelo. É esse universo que eu trato neste espaço...

Não estava a ouvir nada

 

imagemJPG12365.jpg

Há momentos em que a comunicação com os clientes se torna bastante difícil, devido ás máscaras, ao acrílico, ao rádio.

Eu perguntava a  uma cliente apenas se tinha cartão cliente, e ela não percebia, falava mais alto e ela nada. Cheguei a pensar que fosse estrangeira, já que  aparecem diariamente ali alguns.

Mas depois percebi que era portuguesa, porque me disse "espere aí que eu vou subir um pouco, a ver se percebo"! Mas diz-me isto a mexer no elástico da máscara. Supus que ia tirar a máscara e eu disse com o dedo "não, não tire"! Aí já percebeu, pois respondeu: "não vou tirar a máscara,  vou subir, mas é o som do aparelho dos ouvidos"!

Enfim...

A luta diária de uma operadora de caixa

Hoje foi um dia difícil no supermercado onde trabalho. Passei o tempo todo a chamar atenção por uma coisa ou outra. A maioria aceitava e até pedia desculpa, mas outros tinham que discordar ou questionar.

Houve uma altura em que estava a concluir um atendimento, quando olho para o tapete tinha quatro pessoas , perguntei se estavam todos juntos, disseram que não, então tive de pedir para voltarem atrás porque não podiam estar todos em cima uns dos outros. E um cliente diz "então se estivéssemos todo juntos já podíamos, mas qual é a diferença?" Ao que respondi "se fossem todos da mesma casa o contágio era entre vocês, assim é diferente!" Abanou a cabeça, certamente por achou que a minha resposta não era satisfatória.

Depois há pessoas que  passam pela caixa dando  toques no  cliente que está a ser atendido, e nem desculpa pedem. Nem tinham de passar por ali. Há um local para saírem sem compras, sem incomodar ou empatar e até tocar quem está a ser atendido na caixa.

Depois há aquelas pessoas que devem de ir ter ao supermercado sem querer, apenas caem ali de para-quedas, ou sei lá, não levam as coisas que precisam do carro, sacos, carteiras, carrinho de compras cupões, só empatam.

E as senhoras demoram tanto tempo a pagar, tiram a carteira dos cartões, depois tiram a das moedas, depois metem  na mala, retiram de novo. E depois ainda ficam a fazer sala em vez se seguir e dar lugar aos outros.

As pessoas adultas são mais indisciplinadas que  as crianças, porque as crianças aprendem, aceitam, percebem e obedecem, estas não!

Quando me dizem "a ver se a pandemia acaba para ficarmos mais à vontade", eu só penso "espero que mesmo com o fim da pandemia algumas regras fiquem".

As pessoas andarem a chocar umas com as outras; as pessoas estarem em cima umas das outras no momento do pagamento; a falta de privacidade; o estarem a soprar para cima da operadora; o estarem quase em cima do nosso teclado; os clientes darem nos os artigos em mão pela frente, principalmente os mais pesados . Nada destas coisas me farão falta ou saudades, pois sempre foram comportamentos incorretos!

Eu sei que estou ali para trabalhar, e tudo faz parte, mas há dias em que me sinto cansada psicologicamente. Há pessoas que vão lá semanalmente, e fazem sempre os mesmo erros, tentam sempre ludibriar, tentam sempre "pular" as regras, não por desconhecimento, mas por implicância.

É uma luta diária para que se cumpram regras de saúde  de segurança! Que bom seria se o vírus se fosse embora, mas que as pessoas adotassem as regas básicas de civismo, só mesmo as mais básicas!

peoplesupermarket.jpg

Os que marcam pela diferença

Estava eu numa caixa ao fundo da loja, onde há cerca de dois anos, era a entrada para o supermercado.

Estava distraída com o atendimento, e com os clientes que estava a atender, não dei por um grupo de pessoas chegar até perto de mim, porque julgavam que seria  ali a entrada. Só dei por eles quando começaram a falar alto, de modo  agressivo,  zangados por a "porta" não abrir. Ora não existia ali porta alguma, apenas um vidro.

Apanhei um susto enorme. Entretando lá houve alguém que percebeu que a entrada, era no inicio da loja por onde eles já tinham passado.  Era um grupo grande com mulheres, homens, crianças e até bebés. estavam quase todos vestidos de preto, com as mascaras e as roupas sujas, notei até pelo menos uma senhora tinha um trapo branco a servir de máscara.

Depois de andarem por dentro da loja, mesmo sem os ver, ouvia-os da minha caixa, falavam, ralhavam, as crianças choravam. Uma parte deles foi para a minha caixa e a outra para outra caixa. Na minha caixa com o carrinho que tinham davam cacetadas no carrinho do cliente que estava à frente, ainda tentei chamar atenção, mas ou não ouviram ou não quiseram saber, mas tive receio de insistir.

Quando começo a registar um homem pergunta-me se posso lhe trocar uma nota de €50, digo que não. Saiu para ir trocar a nota e ficou uma senhora com um bebé no colo, mais duas crianças pequenas. Uma das crianças derramou sumo para cima do tapete. Conforme eu ia registando a senhora ia atirando os artigos para dentro do carrinho, sem cuidado, nem critério. Partiu os ovos, e partiu uma caneca, um pão saiu do saco, mas não quis saber, deixou até o chão pingado do ovo. Uma das crianças que devia de ter uns 5 anos, lindo de olhos azuis, tinha  narizito ranhoso, mostrou-me uma moeda de um euro e apontou para umas carteiras de legos e perguntou se eu lhe vendia aquilo por um euro. Lá lhe disse que não chegava.

Entretanto chega o homem com um maço notas e  paga. Saíram cheios de pressa, a ralhar e os miúdos a barafustar!

Eu não quero ser mal interpretada, mas se estas pessoas, tiveram um comportamento diferente, fizeram-se notar, deixaram-nos com receio. Não é uma questão de racismo ou de xenofobia, não quero estar com queixas, mas para que todas as pessoas, culturas, etnias, religiões,  sejam vistas por igual, também deveriam ter, um comportamento adequado nos lugares que frequentam, porque mesmo sendo um grande grupo, não estavam ali  sozinhos.

Se todos os clientes fossem em família ás compras, a fazerem aquele espectáculo, seria normal e já estaríamos habituados, mas felizmente não é assim.  Porque se estão em grupo na sua comunidade, podem ter o comportamento que faz parte da sua cultura, mas se querem ser vistos como iguais em sitios publicos  não se comportem de modo diferente! 

imagemculturas345.jpg

A função do acrílico

Como já aqui disse, acrescentaram do lado da entrada uns centímetros de acrílico, para nossa proteção, havendo assim mais distanciamento do cliente. Mas também temos acrílico atrás, e até lateralmente. Praticamente só no topo não há acrílico,  a ver se as pessoas entendem que é ali que podem estar e arrumar os artigos. Não precisam de se colocar em cima de nós ou entregar  artigos em mãos.  Os artigos são para colocar o mais atrás possível, que depois rolam até nós!

Ainda assim, um dia destes, um casal de clientes depois de colocar todas as compras sobre o tapete, deixando-o tipo torre, o homem queria me ir entregando o que ficou ainda no carrinho , artigo a artigo em mão. Queria entregar um pacote de bolachas depois um pacote de manteiga e assim sucessivamente. Quando lhe disse que não podia ser, chamou a senhora que o acompanhava e disse " ó Fulana já viste esta graça, diz que não posso dar as coisas em mão!" Diz a outra "A sério!? Mas porquê!?"

Noutra ocasião um cliente queria ver um preço e quase se deita no tapete para observar o meu ecrã (até me cheguei atrás), quando do outro lado tem um ecrã só para ele!

E as vezes que os clientes já deram cacetadas no acrílico!? Estou à espera de um dia, ver alguém a partir ou a rachar aquilo. Estão sempre a bater lá, a abanar aquilo tudo! Pode acontecer uma vez sem querer, mas quando o mesmo cliente, chegar a bater lá várias vezes, é estranho!

segurancaimagem.jpg

 

É assim tão complicado aceitar!?

Quando estávamos em estado de emergência, as pessoas estavam tão  preocupadas que o supermercado fechasse, que  acatavam bem as normas, mas agora,  muitas dessas pessoas, já não estão para isso.

Um dia destes fiquei agradavelmente surpreendida porque tinham acrescentado um pouco de acrílico  do lado da entrada do tapete. Até pensei que assim os clientes já não iam querer entregar os artigos pesados e não pesados em mão porque iam perceber que estando lá o acrílico, não era para o fazer. Além do mais estaria completamente fora da zona verde e justamente na zona vermelha.

No entanto enganei-me, continuam a existir aquelas pessoas, que teimam em entregar coisas pela frente, em mão, só porque lhes dá jeito. É impressionante. Gente que não aceita regras, nem os procedimentos da empresa, nem as nossas instruções. Para este caso só se o incumprimento desse assim um choquezinho, só assim ao de leve.

Cheguei a comentar com uma senhora, ela própria  também  admirada com a relutância de um cliente, que dizia "e porque é assim e não assim, mas para mim era melhor que fosse assim; e da outra maneira dava-me mais jeito", que também me dava mais jeito quando saisse do trabalho não ir dar uma volta enorme a uma rotunda, mas se está lá o sinal, eu respeito!

Outra coisa em que insistem é fazer fila única, quando não fila única, não há uma sinalética que diga haver, não há uma placa, nem o espaço está adequado a isso, estão sempre a avisar no áudio, há colegas sempre a fazer dispersar a dita fila. Até pode haver quem ache que devia de haver, mas se não há, têm que respeitar.

Também já há clientes a quererem passar, pela saída com compras, quando não têm compras, já andam com vontade de se andarem de novo a roçarem/chocarem uns nos outros.

É uma luta todos os dias para que certas pessoas percebam que esta situação  veio mudar o mundo, e estas novas regras, são na sua maioria, comportamentos muito mais cívicos e corretos que os anteriores!

imageJPG003.jpg

Gente que faz birra no supermercado!

Há dias mesmo complicados, exaustivos. Há momentos em que parece que estamos numa escola, onde as crianças são muito rebeldes e temos de estar constantemente a chamar a atenção pelas asneiras que estão a fazer ou pelas atitudes que deviam tomar e se esquecem. Mas faz parte das minhas competências, zelar para que todas as medidas sejam tomadas de forma a minimizar o risco de contágio!

madame.jpg

Aquele dia até me estava a correr bem, as pessoas estavam a ter as atitudes corretas, a conversa com os clientes estava animada e simpática. Entretanto, estava a meio do atendimento de uma cliente, quando chega um casal, aí na casa dos quarenta anos. A esposa começa a colocar as compras no fim do tapete e diz ao marido para ele passar para o outro lado, onde ainda estava a cliente do momento. Quando ele pergunta se pode passar eu respondo que não convém passar por ali. Pergunta e atitude escusada, pois para ele passar, ia quase roçar na cliente que estava a ser atendida, a mesma teria de desviar o carrinho, e não ia respeitar o espaço de afastamento. O senhor foi dar a volta mas a esposa ficou lixada comigo, vi logo pelo olhar e pela atitude.

Quando chegou a vez deles comecei o registo, quem conhece os nossos tapetes de saída sabe que têm aqueles rolinhos para as compras deslizarem para o fundo. Estava eu muito bem a rolar os artigos, quando a madame diz: "ou você passa as minhas coisas devagar ou eu deixo cá tudo!" Respondi que não tinha percebido. Fiz-me de tonta, mas a minha vontade era dizer " acha que eu me ralo com isso, não sou eu que preciso das coisas, por mim pode ir e deixar aí tudo, fica na sua consciência!"

rolinhos.jpg

Haja paciência para esta gente intolerante, que não aceita nada, não respeita nada e anda sempre com duas pedras na mão. As birras dos adultos são muito piores que as das crianças, porque as crianças aprendem, estes são demasiado casmurros para isso!

Já olharam para o tapete rolante da caixa do supermercado!?

Muitas pessoas já me disseram que "o continente, tem boas medidas, melhor que muitos outros,  assim sim, sentimo-nos seguros para vir ás compras!"

Verdade, concordo plenamente. Mas, não é fácil. É preciso estar sempre a lembrar as regras a alguns clientes. Porque existem aqueles que fazem tudo conforme as regras, ou porque já conhecem e é habitual irem ali, ou porque estão de acordo e compreendem, mas existem outros que nos dificultam a vida, que são do contra, que acham algumas medidas exageradas.

Desta vez queria me focar na colocação dos artigos no tapete. É que agora, se é que já repararam, há uma zona verde, outra amarela e outra vermelha. Funciona mais ou menos como nos semáforos, onde o verde é para colocarem os artigos, no amarelo já não é boa ideia e no vermelho é mesmo para não colocarem os produtos. Se forem colocando na zona verde, o tapete vai rolando e os artigos chegam até à operadora ou operador.

Aquele velho e mau hábito de darem produtos à mão da operadora acabou, é zona vermelha! Nada de dizerem que ali dá mais jeito para depois ir logo no fundo do carrinho. Além de não estarem as cumprir as regras  do afastamento, também estão a obrigar o colaborador a fazer um esforço físico desnecessário e prejudicial à sua saúde, porque para um cliente, pode ser só uma caixa de cervejas, para o colaborador durante um turno já são umas 20 e ao fim do dia está de rastos, e não é obrigado a isso! A empresa vela pela saúde e segurança do trabalhador! 

zonaverdeamarelavermelha.jpg

Desculpem se fui um pouco dura neste assunto, mas teve de ser, não sou  só eu, há muitos colegas a se debaterem com isto todos os dias. Tenham paciência e aceitem as regras que são para a segurança de todos!

"Estou a ver em qual me despacho primeiro!"

Chega o momento de chamar mais um cliente para a tender.  Está uma senhora ali no meio, nem  percebo em que fila está. Pergunto:" está nesta fila?!" E a senhora hesitando responde: "estou a ver em qual é que me despacho primeiro!" E não avançava, então digo ao senhor que estava depois dela,  para avançar, e ela lá ficou à toa!

filasuper.jpg

Também não é preciso ter tanto medo

mulherassustada.jpg

Uma cliente estava a dar passos largos de sinalética em sinalética, eu disse que ela podia colocar os artigos no tapete. Revela-me estar nervosa com isto tudo. Diz-me até ter receio de ser presa, porque mora numa aldeia distante, onde está tudo fechado, e tem de sair, porque nem mercearia lá tem.

Conta-me que não tem dinheiro para fazer grandes avios de uma só vez, pois só pode comprar as coisas aos poucos.

Tento aclamar a senhora dizendo que o importante era levar alimentos para estes dias de 9 a 13 de abril. Ela diz que foi isso que fez, mas que depois terá de voltar.

Aproveitei para lhe dizer que as medidas eram para nossa segurança, porque a situação era grave. Penso que a conversa comigo a reconfortou!

Bendito acrílico

Mais um ponto positivo do acrílico nas caixas: agora os clientes que tinham o hábito de nos dar pela frente caixas das cervejas (ou outros artigos pesados) , já não o podem fazer!

Pessoas com problemas de coluna, era um constante desafio, e quem não os tinha, com este exercício, certamente, ficaria. Posso dizer que cheguei a andar dois meses com um  problema num ombro devido a esta brincadeira.

Agora existe um motivo para recusar, porque antes, tinha de aguentar, e pronto! Mesmo assim, com o acrílico há clientes a darem lá cabeçadas e encontrões. As pessoas não entendiam, que o tapete rolante servia justamente para que as pessoas não tivessem de fazer aquele esforço, para que poupássemos o nosso corpo, para facilitar a vida às pessoas, porque também não somos máquinas.

Se fosse um maço de rolos de papel higiénico, apesar de volumoso é leve, não se compara a produtos pesados que puxavam pelo físico!

imagem567000.jpg