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A lupa de alguém

Sou operadora de caixa num supermercado Continente modelo. É esse universo que eu trato neste espaço...

A lupa de alguém

Sou operadora de caixa num supermercado Continente modelo. É esse universo que eu trato neste espaço...

Parece que o medo de passar fome é superior ao do contágio

Esta semana o caso começou a ficar realmente preocupante. As pessoas, andam a correr ao supermercado, a açambarcar tudo o que podem, como se a comida fosse acabar.

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(Imagem retirada da internet e publicada por um cliente do continente)

Tem faltado algumas coisas, não porque não haja os artigos, mas porque não se esperava este açambarcamento, e é preciso repor, reforçar.

Hoje por exemplo, foi a loucura, ás 9:30h já as filas eram grandes, diminuiu um pouco à hora de almoço, mas se for como ontem, no horário pós laboral, volta a encher até se perder de vista o fim das filas.

Ainda se fosse como na greve dos combustíveis, que havia a hipótese de os alimentos não chegarem ao destino e ficarem retidos, mas não! Isto é um caso sério sim, devido ao contágio, não por se poder  passar fome!

As pessoas disseram ter receio de os obrigarem a ficar fechados em casa e depois não terem nada para comer. Não acreditam que alguém lhes vá depois fornecer comida.

Então e o papel higiénico, perguntavam-se eles!? Isto vai dar em diarreia!? Não é por isso, diziam outros, é porque alguém disse para limparem as superfícies com um spray desinfetante com  papel e depois meter no lixo! Então era para isso tanto papel!?

Uma senhora que me disse ter problemas de saúde, pensou levar máscara mas teve vergonha, e só foi comprar as coisas do costume, realçou que não fazer armazenamento.

Muitas pessoas ouviram as notícias sobre as praias de ontem (zona de Carcavelos) estarem cheias de gente, acusando as pessoas de inconscientes, desobedientes, porque os tinham dispensado da universidade/escola/trabalho para ficarem em casa e foram todos para esplanadas e praias. Enquanto uns vão pro supermercado esvaziar prateleiras, outros vão para praia desfrutar do sol! Fazer o que lhes foi pedido e recomendado, não! Talvez com vigilância policial...

Parece que o medo de passar fome é superior ao do contágio. É preciso calma, ter comportamentos adequados, principalmente de higiene e ouvir mais quem sabe, quem é profissional, do que os sensacionalismos da comunicação social, principalmente um determinado canal, felizmente é um canal por cabo e muitos velhotes não tem acesso.

Nós, que trabalhamos num supermercado também estamos muito expostos, temos um frasquinho em spray com álcool, para ir passando nas mãos e nada mais. Eu estou realmente preocupada, não só por mim, mas também pelos meus, aqueles com quem vivo. Para já ainda não tenho receio de ficar sem comida em casa.

A mensagem que ontem o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho da SIC deixou, tornou-se viral no bom sentido, por ser tão correta e sensata!

« Foi declarada oficialmente a pandemia. Permita-me recordar que nesta fase estamos todos no mesmo barco, não sabemos para onde vai, não sabemos qual a dimensão do perigo que espreita. Em Portugal, e até novas ordens, podemos fazer a nossa vida.

Mas com uma atenção suplementar: reduzir os nossos contactos físicos ao estritamente necessário, evitar aglomerações sempre que possível, manter uma higiene vigilante e respeitar o espaço dos outros.

É bom que os portugueses percebam que esta não é daquelas que se resolvem a pensar 'isto só acontece aos outros'. Dito isto, vamos manter a esperança e o animo porque a tempestade vai passar com a ajuda de todos nós, do país e do mundo.»

Obrigada Rodrigo, por esta mensagem!

As pérolas do natal

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Nos dias que antecederam o natal, o supermercado estava como era de esperar, cheio. ainda assim dava sempre para ter "um dedo de conversa" com quem também se propunha a isso.

Gostaria de salientar neste âmbito, duas situações:

  • a primeira, uma cliente habitual, acompanhada pelo marido, diz no seu discurso que se aborrece com esta quadra, que o natal não lhe diz nada, e mais coisas do género. Ao concluir o atendimento, e depois de ouvir a sua palestra, pensei para mim " bem, é melhor não me despedir com celebre frase de boas festas e só dizer bom dia e obrigada. Vai ela retribui com um efusivo "Bom Natal"! Vá se lá entender esta gente...
  • o segundo foi um senhor que no dia 24 me perguntou, primeiro a que horas fechávamos naquele dia, respondi. Depois diz "mas amanhã está fechado"! Ao que eu respondi "sim, é dia de natal"! E responde ele "para mim é um dia igual aos outros"! Fiquei sem saber se devia de dizer que lamentava ou o que responder, e apenas disse "pois"!

Há sempre alguém a se fazer notar pelas suas teorias, portanto histórias para este novo ano, não vão faltar!

Atendimento ao público quando estamos quase sem voz

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Quase todos os anos nesta altura do ano me constipo e quase sempre fico rouca. 

Muitos clientes ficam solidários comigo, dão conselhos de chás, e outras mesinhas, alguns até sigo, mas pelo menos uns 5 dias a rouquidão mantém-se. 

O que custa é que, mesmo sem má intenção, fazem-me repetir o "texto", mais vezes, e isso deixa-me mais cansada!

O que vale é que mesmo assim, alguns clientes ainda me faziam rir da minha "condição"!

 

Os quebra-regras

Um dia destes, um cliente com um carrinho cheio, ao chegar minha caixa, queixou-se da minha colega não o ter deixado ir para as caixas self-service. Respondi que aquelas caixas não eram para carrinhos e que estava lá uma placa com essa informação. Ao que ele respondeu "pois, mas bem que ela podia facilitar"! Respondo que são regras da empresa, e o cliente, continua a não aceitar a regra e a dar os seus argumentos parvos!

Desisti, de argumentar. É por causa destas pessoas com esta dificuldade em aceitar normas, que a caixa de 10 unidades deixou de existir, porque as pessoas também queriam ir para lá com um carrinho cheio, alegando que não estava lá ninguém com dez unidades, e que as podia atender...

Fico passada com gente que não aceita regras, imagino que estas pessoas, também não devem respeitar outro tipo de regras, tipo as de transito, argumentando "o sinal está vermelho, mas não está aqui ninguém, vou passar e pronto!"

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Ser operadora de caixa, na minha perspetiva é...

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Os seguintes pontos, são aqueles sobre os quais me debruço e tento cumprir e fazer o meu melhor…

  • Cumprimentar, se possível, olhos nos olhos, o cliente.
  • Perguntar se precisa de saco, ou de ajuda em alguma coisa no embalamento. Ser prestável!
  • Ouvir, quando o cliente refere se encontrou ou não, tudo o que precisava, ajudar nesse sentido.
  • Escutar, o que o cliente tem a dizer sobre o que aconteceu nas seções, peixaria, padaria, talho etc…
  • Ir registando as compras de acordo com o ritmo do cliente.
  • No caso de já conhecer alguma coisa do cliente, meter conversa a esse respeito, desejando que alguma coisa menos boa, se componha! Se a pessoa é divertida e diverte, entrar nesse compasso.
  • Perguntar se quer o número do contribuinte na fatura, respeitando, as razões que o cliente aponta para o sim ou para o não, encontrando um ponto em que concorda com ele.
  • Perguntar se tem cartão de cliente, cupões e se quer descontar saldo, no caso de o ter...
  • Dizer o total de forma subtil, para não assustar o cliente, mencionando os descontos que teve.
  • Despedir e agradecer com agrado e simpatia.

Será que me esqueci de algum ponto importante? Aceito sugestões, de colegas e de clientes!

Mexer e arrumar

Um cliente diz para o outro que não gosta que mexam nas coisas dele, isto porque o cliente seguinte estava a empurrar os artigos do primeiro. Vai o outro responde que não gosta de desarrumações! E começa o bate-boca, que isto as pessoas gostam é de discutir, assim descomprimem e depois já se ficam a sentir melhor!

 

Cá para mim pensei: até podia não gostar de desarrumações, mas também não tinha de ir arrumar "a casa" do outro!

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A corrida para a peixaria

Os sábados de manhã são muito animados, principalmente à entrada do supermercado e antes mesmo, de abrirem as portas!

Vão para a porta quase meia hora antes de abrir, as esposas ficam à porta, os maridos dentro do carro a dormir. O tema da conversa, que eu ouvi "deviam de haver senhas para o peixe aqui fora"! Isto porque quem chega primeiro ao supermercado, nem sempre chega primeiro à peixaria.

Outro facto: logo à entrada do supermercado está o dispensador de cupões onde  também dá logo para tirar as senhas para as seções não só da peixaria, como talho, charcutaria, etc, só que muitas pessoas não se apercebem disso, e vão logo a correr para a peixaria.  Depois, quando percebem que ao chegar à peixaria primeiro, já há pessoas com senhas, que ainda estão primeiro, mas que chegaram atrás, rebenta a bolha, ou seja, a discussão! Uma senhora chegou a dizer-me que trazia o netinho para ele correr para a peixaria tirar a senha, porque ela já não tinha pernas para entrar na corrida.

E vale a pena andarem a discutir por causa de uns quilos de sardinhas ? Será que as sardinhas acabam assim tão depressa? Será que os que são atendidos primeiro, ficam com as sardinhas mais frescas?

 É que queixarem-se porque têm muitas pessoas para ser atendidas, porque há poucos funcionários a atender,  e têm uns 10 números à frente, eu até entendo, agora esta confusão  à entrada, era desnecessária!

Se calhar estas situações acontecem mais em localidades mais pequenas e em continente(s) modelo(s), onde há pessoas de aldeias, habituadas a se levantarem cedo,  nos grandes continentes urbanos, será que também há estas corridas?

É preciso mais calma, paciência e tolerância!

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Quando a operadora de caixa faz psicologia

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Por vezes há clientes que partilham comigo, situações pessoas, vivências, preocupações. Talvez me escolham, porque eu não sou dali, não tenho ali raízes, nem conheço o passado ou as histórias das pessoas e dos seus amigos e familiares.  Andei durante anos a desejar ser professora primária, e deveria era ter desejado ser psicóloga ou socióloga, já que uma está relacionada com o meio onde vive e convive e a outra se refere a cada individuo na sua singularidade.

 

Histórias de maridos que controlam as contas das esposas, historias de separações conflituosas, de doenças, situações tristes, de solidão,  de perdas dramáticas...

 

Um dia destes, estava pouco movimento e a cliente ficou lá um bom bocado a conversar, só pensei "esta vida dava um livro"!

 

Nós operadoras de caixa, acabamos por ser um pouco psicólogas, mas por vezes, perante a gravidade da situação que me contam, sinto que me falta aquela palavra certa para dar à pessoa, quem diz palavra diz conselho, mas pelo menos, julgo que sou boa ouvinte, e que consigo transmitir algum conforto.

 

Por vezes quem vê caras, não vê corações, é um cliché, mas adequa-se, porque só conhecendo a história de vida da pessoa conseguimos entender melhor as suas atitudes!

 

Daí que quando alguém tem uma atitude menos comum, já penso que alguma razão ela terá, para agir assim...

Atitudes egoístas na fila do supermercado

Além de ser sábado, também era fim de mês, talvez por isso, o supermercado estava cheio de gente, as caixas todas abertas, filas enormes.

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Uma cliente com o carrinho cheio encostado ao início do tapete está na fila ao telemóvel, e não coloca as compras no tapete. O tapete quase vazio, pessoas atrás desta senhora para atender, não avançam. Então ela vê um rapaz com poucos artigos, e diz para que ele passe, já que tem poucas coisas, e porque estava à espera de alguém. No entanto, já estou quase a acabar o atendimento ao rapaz e a senhora a GUARDAR o lugar na fila.  Chamo, a pessoa que tem o carrinho cheio para passar, e a  dita senhora olha-me com espanto! Atendo esta senhora e a mulher continua no mesmo lugar. Esta senhora, teve sorte em não apanhar daqueles clientes que perante esta situação, a iam mandar sair dali. A minha vontade também era essa!

 

Aquilo estava a enervar-me tanto, que a minha colega da caixa atrás da minha , pergunta-me se está tudo bem, mas eu não podia dizer o que se estava a passar.

 

Em voz bem alta, digo, "façam favor de passar". A cliente que coloca as compras diz que aquela senhora está a guardar o lugar, ao que eu respondo em voz alta "era só o que faltava, ficar aqui parada com pessoas na fila"! Cheguei a atender aí uns (6) seis clientes com carrinhos cheios, enquanto aquela senhora ali estava, colada ao tapete. As pessoas tinham de a contornar para chegar ao tapete.  Mas porque foi ela para fila, se tinha de esperar pelo marido, para avançar!? Cada vez entendo menos estas atitudes egoístas, esta falta de civismo. Quem é e ela pensa que é, para estar ali a impedir as outras pessoas, de serem atendidas!?

 

Lá chega o marido, começo a atender, no final, tinha um artigo da campanha da caderneta, e entrega-me a caderneta com 4 selos colados e os outros 21 ao monte. Eu digo "nós só aceitamos a caderneta com os selos colados!"  Então ela manda o marido colar os selos , ao que ele responde "que seca, eu é que tenho de colar estes selos todos"! A senhora faz o pagamento e eu atendo mais um carrinho cheio, enquanto colam os selos. Depois volto a eles para fazer o registo do produto com a caderneta!

 

É preciso muita paciência, paciência infinita, mesmo!

Um animador destes tem muito mais valor, do que preço!

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Eu sou muito grata, aquelas pessoas, aqueles clientes, que quando estão na fila, conseguem animar os outros e até a operadora de caixa. Fazem quebrar a monotonia e arrancam-nos sorrisos e gargalhadas. Esses são muitos especiais.

 

Lá estava aquele cliente que me trata por a romancista, ainda por conta de ter escrito dois livros, há uns anitos.  Estava a ser atendido e disse apontado para outra cliente da fila, conhecida dele: "olhe que aquela senhora esteve a  roubar amendoins, leva os bolsos cheios, mas as cascas atirou-as pro chão, para não ocupar espaço!"

 

Acreditem que uma intervenção destas entre os "pips" da caixa registadora, e as repetidas  perguntas da praxe, ajuda a passar e a alegrar  os nossos dias!

 

Obrigada!