O mau tempo que assolou o nosso país, a depressão Kristin, tem se feito notar nos rostos das pessoas.
Nas localidades que rodeiam o Cartaxo, ainda há pessoas sem água, sem luz, sem comunicações.
Atendi um casal que tinha ido comprar um gerador, para pelo menos, não deixarem estragar os alimentos que tinham na arca frigorífica.
Outras pessoas disseram que nestes dias, não puderam ir trabalhar porque a creche dos filhos, estava sem eletricidade, e não abriu, então tiveram ficar com as crianças, porque não tinham com quem as deixar.
Também há pessoas a irem tomar banho a um pavilhão que a cidade disponibilizou, porque sem água quente, e com os familiares na mesma situação, não tinham outra solução.
Ontem atendi um senhor que me disse que na zona de onde vinha, as filas do supermercado eram grandes e faltavam muitos produtos nas prateleiras .
Ainda há pessoas sem televisão para verem as notícias. Até me confidenciaram, que acabam por se deitar mais cedo, para não estarem na escuridão.
Até para entreterem as crianças faz falta televisão.
Atendi pessoas que estavam unidas a comprar bens para darem a pessoas que estavam a precisar. É bom ver, como os portugueses, são solidários.
Uns velhotes disseram que voltaram a ouvir rádio a pilhas. Pessoas que procuravam velas, mas não encontraram, então levavam daquelas para perfumar a casa e alumiar ao mesmo tempo.
Já aqui referi várias vezes que, situações com crianças. Elas são tão genuínas, tão doces. Podemos sempre aprender alguma coisa com elas.
Há um menino que vai com os avós, deve ter uns três anitos. Avó está sempre a segurá-lo bem pela mão. Ele é falador, mas depois esconde-se com vergonha. Ele está sempre a dizer que quer pagar, e dá-me moedas de plástico, daquelas de tirar carrinhos. Eu finjo aceitar e depois entrego à avó. Ele fica contente! Despede-se a sorrir.
O que foi que aprendi? Que esta criança, quando for grande, vai fazer de tudo para pagar as suas contas!
Na passada sexta-feira, dia 23 de janeiro, a padaria do continente modelo onde trabalho, passou a ser de livre serviço.
Embora tenha ficado um espaço bonito, e a prática já seja habitual em muitas lojas, divide opiniões.
Agora somos (operadores de caixa) nós que registamos tudo, não é, como em algumas lojas, onde há balanças e são os clientes a fazerem esse trabalho.
Fiquei a saber que existem 1001 pães diferentes, e que é preciso os saber distinguir, para além de um número infinito de bolos e salgados. A caixa registadora tem imagens, é certo, mas mesmo assim, é preciso algum tempo.
Houve clientes que lamentavam já não serem as padeirinhas a aviar. A máquina de cortar o pão, também agora manejada pelos clientes. Vi alguns pães cortados ao alto, e outros, que por estarem quentes, ficarem quase em sopas.
Ontem, estava a atender um casal que tinha, por acaso, uns pães, que nem eles sabiam o nome, nem eu encontrava a imagem. Fiquei ali um bocado à nora, a pesquisar e stressada. Um senhor, que estava a seguir, certamente, é perfeito no seu trabalho, não pensou que era apenas o "nosso segundo dia ", disse-me, que eu devia era de me reformar, porque já não estava capaz de ali estar! Estas "bocas" parvas de alguém que não tem nem entendimento, nem empatia pelos outros.
Hoje, por exemplo, já me correu melhor.
Agradeço, ás pessoas, porque foram muitas, as que compreenderam e tiveram paciência e até ajudaram, dizendo o nome do artigo, pois essa é uma boa de nos ajudarem .
Um simpático velhinho, cliente habitual, vai à minha caixa com dois artigos.
Velhinho: Olá menina, então como está?
Eu: Estou bem e o senhor como está?
Velhinho: Ai, estou muito mal!
Eu (preocupada): Então, o que se passa?
Velhinho: Morreu-me a minha papagaia, a minha única companhia, a minha amiga! Ontem à noite, despediu-se de mim a dizer até amanhã. hoje quando vi estava morta.
Perguntei que idade ela tinha, disse-me que tinha uns 12 anos. Disse-me que a voz da papagaia era igual à sua falecida esposa. contou-me também que um mês depois da morte da esposa morreu o cão com o desgosto, e agora a papagaia.
Ainda lhe disse para arranjar um gato, mas ele disse que não gostava de gatos. Os clientes que estavam a seguir sugeriram outra papagaia, e ele disse logo que nunca seria igual. Nisto começa a chorar e a lamentar-se.
Fez-me imensa pena, até parece que ele sabia que o compreendia por também gostar de animais, embora, nunca tenha tido um papagaio.
Os clientes seguintes contaram de alguém que também tinha um papagaio e até dava recados aos vizinhos, quando o dono , saía. Salientaram o valor destas aves.
Espero que o senhor encontre algum conforto em algum parente ou vizinho para não sofrer tanto esta solidão!
No dia 12 de janeiro chegou a notícia triste de que a plataforma do SAPO Blogs, vai ser encerrada. Para mim, que estava tão habituada a esta comunidade, foi um balde de água fria, pois pensei que os blogues eram eternos. Já tinha este blogue aqui, há 18 anos.
É como se vivesse numa ilha, mas a meteorologia avisasse que o mar ia comer a ilha, e que os moradores teriam algum tempo para se deslocarem de armas e bagagens para um outro país num outro continente. Sendo que nem todos vão escolher o mesmo país, e por isso, não mais, seremos vizinhos, nem teremos o nosso governador Pedro, nem a vice Jonas para nos orientar.
Estou sem saber para onde me mudar. Terei de escolher uma nova casa, decorá-la, "tratar da mobília, dos quadros", etc. Mas certamente não vou conseguir que tenha a mesma aparência e não gosto de muita mudança. Seremos sempre uma espécie de "deslocados"!
Penso também nos blogues que estão já fechados, ou porque os autores faleceram, ou porque simplesmente fecharam, mas estavam lá, sempre que quiséssemos matar saudades, ou conhecer a sua história. Recordo o blogue Nota dissonante cuja autora, tinha cancro e que mostrava a sua luta, com uma leveza , que só ela.
Dou o exemplo de um dos meus blogues dedicado, a um gato que tive por 12 anos, mas está encerrado, porque o gato morreu. Gostava que a história permanecesse, porque a história , supostamente não se apaga. Foi também através deste blogue "Riscas o gatinho amarelo", que conheci "O blogue da Tica", uma gatinha que também já partiu e deixou a sua história. Foi através destes dois blogues que conheci pessoalmente a Marta, a autora do blogue da Tica, (uma amizade que surgiu aqui e que mantenho até hoje) e que deu origem ao blogue "Clube de Gatos do Sapo", um blogue, que reúne pessoas com esta paixão por gatos, também conheci pessoalmente, algumas pessoas deste projecto.
Se ao menos houvesse a possibilidade dos blogues, mesmo fechados, ficarem na plataforma, mas não há, essa chance.
De qualquer forma, foi muito bom enquanto durou, e para a frente é que é caminho. Temos que reunir a bagagem, para fazer a viagem, e decidir qual o melhor caminho a seguir.
Acredito que foram a imensidão de influencers e redes sociais, que vieram ocupar o lugar da escrita, principalmente o titok. As pessoas com mais de 30/40/50/60 anos é que ainda é fiel, aos blogues.
Fica a minha gratidão à equipa, que sempre se mostrou disponível a ajudar. Entendo que se assim aconteceu, foi porque não houve outra hipótese, porque a equipa sempre lutou pela comunidade.
Agradeço também, pelo tempo que nos dão para tratarmos da mudança!
Como é habitual, o mês de janeiro é sempre um mês difícil, porque as pessoas gastam grande parte do seu dinheiro com o natal, com a passagem de ano, e também porque em dezembro, por norma, recebemos o salário um pouco antes do final do mês.
Estamos a dia 11, e o tema já é comentado. Estava a atender um casal, onde o marido estava a dizer à esposa para ela não comprar determinado artigo, porque já não tinha dinheiro e o fim do mês nunca mais chegava. Na fila estava alguém conhecido deste casal que dizia se queixar do mesmo. Outra pessoa ainda, também entrou na conversa, e disse que este mês, tinha pelo menos uns 40 dias!
Claro que levamos na brincadeira e houve risadas, mas na verdade, todos sabemos, que será um mês longo e difícil!
O que mais incomoda os clientes na fila do supermercado, não são só, as filas longas, pois é comum que aconteça principalmente, em determinadas horas, períodos festivos, ou fim de semana.
O problema que faz demorar um pouco mais, é quando surge um artigo, cujo preço não é igual ao que o cliente viu na prateleira, ou quando o artigo simplesmente não passa no no scanner. Aqui o assunto pode ser resolvido rapidamente ou não, dependendo de uma serie de factores. Por vezes, a conta e o cliente ficam em espera, até que o problema seja resolvido.
Acredito que estes problemas surjam em todos os supermercados e outras lojas, ou seja, é algo normal e natural. Por isso, gostaria de pedir aos clientes que tentem compreender e que não reclamem tanto. Em todos os trabalhos (certamente também nos destes clientes) surgem situações mais desafiantes, mas acredito que, com alguma compreensão e tolerância, tudo fica mais leve e fácil de gerir!
Desde já agradeço aos clientes, que sempre compreendem e até me dizem "não se preocupe, nós esperamos!"
Chegou de mansinho à plataforma do sapo blogs em 2008, e hoje faz 18 anos, tornando-se assim, um blogue maior de idade. O propósito era partilhar situações que surgiam no supermercado, pela Lupa (ótica) de uma operadora de caixa. Entretanto o uso do YouTube, embora não tanto, também passou a ser uma ferramenta de ajuda, ao que se seguiu o Facebook, e por fim, algumas partilhas no Instagram.
O tempo foi passando, os episódios, continuam a surgir, alguns repetidos, o que nos leva a acreditar que as pessoas têm as mesmas atitudes, outros vão evoluindo, o que prova que as pessoas também "crescem", melhoram.
Tanto o trabalho de operadora de caixa na interação com os clientes, como depois o transportar as situações para a escrita, são uma verdadeira terapia. Tornei-me, uma pessoa mais comunicativa, mais atenta, mais empática!
Nunca senti no trabalho, a necessidade de subir, porque tive a sorte de encontrar logo de inicio, o meu posto preferido. Há quem me diga que é falta de ambição, mas eu sempre respondo, que é paz de espírito. O que eu tento, dentro do meu posto, é melhorar a minha prestação!
Espero continuar a gostar do que faço, a ser útil e a partilhar aqui, as minhas experiências, sentimentos, emoções, conhecimentos.
Muito obrigada a todos os que me têm acompanhado, apoiado, incentivado, criticado, observado.
Sei que faz parte do meu trabalho explicar aos clientes como este sistema funciona, apesar de já se realizar assim, há pelo menos, dez anos. Mesmo assim, há sempre quem não aceite o facto de haver um período para descontar o saldo acumulado.
Um cliente disse que não tinha que o obrigar a ir lá na semana seguinte descontar. Então eu respondi que não o estava a obrigar, mas sim a convidar. Não sei como, pois ele parecia zangado, respondeu "ah então assim, está bem!"