Noto que há uns tempos para cá, as pessoas estão mais optimistas em relação ao futuro. Já não ouço falar tão mal do governo, como no tempo do Sr. Passos Coelho. Nessa altura, as pessoas pareciam não ter esperança em melhores dias. Só se falava de crise, de sacrifícios.
Agora, aos poucos, as pessoas começam a mostrar mais confiança. Estão mais contentes com este novo senhor. Dizem que ele veio dar mais ânimo às pessoas, que aos poucos está a restabelecer a ordem.
Mesmo assim, numa conversa, num dia, houve um senhor que disse "espero é que não venhamos a pagar a fatura deste período". Ao que outro senhor respondeu " até pode ser que sim, mas este tempo de ânimo, de esperança já ninguém nos pode tirar, mesmo que dure pouco tempo, é bom"!
Em relação à reposição dos feriados, a satisfação é notória. As pessoas dizem ao retirarem os feriados, só revoltaram os trabalhadores, só perderam a produtividade, e nada ajudou o país, apenas ajudaram os ricos empresários.
Enfim, neste oficio onde me encontro todos os dias, consigo fazer uma espécie de estudo de opinião sobre alguns assuntos, pois ouço as pessoas, não só quando falam comigo, mas também, quando falam entre si na fila. Sim, porque estar na fila não é só uma seca, pode também ser tempo para dois dedos de conversa.
Desta vez eu estava na fila à espera que chegasse a minha vez para pagar as minhas compras. Ouço o cliente que estava primeiro que eu a falar da operadora, dizia:" Bem, aquela, conversa mais do que trabalha"!
Ao ouvir isto eu olho para a operadora. Sim realmente ela estava a falar com os clientes e quem está a observar de longe pode dar a entender que ela está na conversa e que não se despacha. Mas é mera ilusão. Há momentos, em que a operadora não pode mesmo fazer nada a não ser esperar. Isto acontece, por exemplo, quando nós esperamos que o cliente marque o código do multibanco ou quando esperamos que saia o talão...
Estamos a entregar aos clientes uns flyers com informação sobre o novo plano de Saúde wells... Se ainda não tiveram oportunidade de levar o papel, também já há publicidade na TV e está no site aqui .
Pior que explicar os cupões e os descontos aos velhotes, é explicar os mesmos descontos e cupões a uns velhotes estrangeiros. Eram os descontos imediatos dos vinhos, pois está a decorrer a feira dos mesmos, e há uns descontos enormes. A conta já ia a chegar aos duzentos euros, e eles a barafustar entre si e depois comigo. Ao início pensei que eram ucranianos, depois pensei que fossem ingleses (porque usaram uma expressão em inglês), mas afinal eram franceses. Tive de fazer o TOTAL no meio da conta, para eles entenderem como o desconto era feito.
No final, já estavam todos contentes, pelos descontos e certamente pela quantidade de "pinga" que levaram consigo a um preço bem razoável!
Ontem foi dia 10, aquele dia em que, os pensionistas recebem o seu "ordenado" e vão às compras. O movimento até nem foi assim muito grande, mas mesmo assim deu que falar. Eles demoram mais tempo, precisam de mais paciência e tolerância. Estava eu à espera que uma velhota pagasse, e ela mergulhada na sua mala, escarafunchava, escarafunchava. Até que saiu de lá um monte de papelada.
Lá do fundo da fila estava um casal de média idade e diz o homem para a mulher : " olha queres ver que vai dar aqueles papeis todos à rapariga da caixa!?" E voi lá, acertou, deu-me envelopes, senhas, quase tudo passado do prazo, para eu procurar e fazer descontos!
Para nós, estas atitudes já são habituais, já nem estranhamos!
Houve uns momentos de enchente no supermercado onde trabalho. Era para muitos a hora de almoço, aquela em que é para ir a correr ao supermercado.
Estava a atender uma velhota, uma cliente habitual, que é, ou por natureza, ou por algum problema de saúde, lenta. Mas não quer ajuda, pois quer separar os artigos nos sacos a seu gosto. Entretanto, lá se despachou e o próximo cliente, é um homem aí dos seus 40 anos. Não quer sacos, quer colocar os artigos no carrinho a granel. Mas, certamente é daquelas pessoas muito organizadas, e fazia tudo de forma igualmente lenta, e por vezes, até tirava e mudava as coisas de lugar.
Na fila estava uma senhora só a olhar para o relógio...Comecei a stressar de a ver tão stressada. Eu bem tentava que o senhor se apressasse, mas, enfim, não dava, ele parecia que estava sozinho ali e que não havia filas. Até que a senhora em voz bem alta desabafa: "pelo amor da santa, isto assim não!" O senhor, nem reagiu, foi como se não estivesse a falar dele.
Uma ideia: na hora de escolherem a melhor fila, ficar atrás de velhotes, é mau, pois demoram mais nas tarefas, mas ficar atrás de um homem de média idade, ainda pode ser pior!
Aqui há uns tempos e aquando da saída do meu segundo livro, estive numa escola de ATL, a falar sobre a profissão. Não sou muito de falar em público, mas com crianças é diferente. Foi interessante falar com eles e ouvi-los!
Em criança quando me perguntavam o que queria ser, a resposta era educadora de infância ou professora primária. Já em adulta pensei em tirar um curso de psicologia ou sociologia justamente por causa do meu trabalho. Porque gosto do atendimento ao público, e por vezes os clientes, tem certos desabafos comigo e um curso desses talvez me ajudasse a ter as palavras certas para os confortar.
Para já, gosto daquilo que faço e sinto-me muito bem onde estou. Se perdesse este trabalho por alguma razão, ia me custar muito. Muitas pessoas me perguntam se eu não gostava de evoluir. A minha resposta é: se estou bem neste posto porquê mudar!? Depois dizem-me "mas não és ambiciosa"? Sim até sou... num futuro longínquo, gostaria talvez, de voltar para a minha aldeia e gerir o meu próprio supermercado, um "Meu super" por exemplo...